Existe uma cantora e compositora que considero simplesmente extraordinária, tanto como artista quanto como ser humano: Florence Welch, a voz e a alma por trás do Florence + The Machine. Para mim, ela é, sem exagero, a melhor da sua geração.
Recentemente voltei a ouvir — e a sentir — a música "Free", do álbum Dance Fever (2022), e quis compartilhar aqui o motivo pelo qual ela significa tanto para mim.
▶ Assista ao clip oficial (e fantástico!) aqui
A música fala de ansiedade. Não de forma clínica ou distante, mas visceral — aquele conflito interno que não tem hora marcada para aparecer e que quem convive com ele reconhece imediatamente. Eu me identifico profundamente com isso, porque a ansiedade é uma companheira que habita minha vida há muito tempo. Não uma inimiga que preciso destruir, mas uma presença com a qual aprendo, dia após dia, a coexistir.
E é justamente neste ponto que a letra de "Free" me toca de forma especial. Florence descreve o momento em que a música surge como uma espécie de âncora — ou melhor, de asa. Quando ela dança, a ansiedade recua. Por alguns instantes, ela é livre. Confiram este trecho da letra:
"As I hear the music, I feel the beat
And for a moment, when I'm dancing
I am free
I am free
I am free
I am free"
Você pode conferir a letra completa no Genius.
Não é poesia vazia. É a descrição precisa de algo que a ciência chama de regulação emocional através da arte — e que quem pratica música, dança, pintura ou qualquer forma de expressão criativa conhece bem na pele.
A arte tem este poder singular: ela não resolve o problema, não elimina a dor, não acaba com a ansiedade. Mas cria um espaço — mesmo que temporário — onde a gente pode respirar. Onde os pensamentos que normalmente circulam em espiral encontram uma pausa. Onde emoções difíceis, em vez de nos paralisar, ganham forma e se tornam suportáveis.
Falei sobre algo parecido aqui no blog quando escrevi sobre apreciação artística como ferramenta de mindfulness — e como visitar o MASP e me emocionar diante de Van Gogh e Renoir foi, naquele momento, tão relevante quanto uma boa meditação.
Não precisamos esperar estar bem para ouvir música, ir a um show, ver um filme, ler um poema. Às vezes é exatamente quando não estamos bem que a arte mais tem a oferecer. Ela nos diz: você não está sozinho nisso. E diz isso de um jeito que nenhuma outra linguagem consegue.
Florence entendeu — e traduziu em música — algo que muita gente leva anos para aprender: que ansiedade e tristeza não são falhas a corrigir, mas partes legítimas da experiência humana. E que, no meio delas, ainda é possível dançar.
Às vezes, isso é o suficiente.
***** Belo Horizonte, 17 de maio de 2026 *****
