segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Megaprojetos e Riscos

Megaprojetos e Riscos

A foto abaixo é de uma lista de livros que separei nos últimos dias para ler/reler/refletir a respeito, em virtude de um possível projeto para um cliente que desenvolve projetos de capital.


Megaprojetos e Riscos: uma pequena bibliografia

Projetos de capital são projetos que possuam as seguintes características:
(definição tirada desta minha apresentação):


  • Implicam em aumento de capacidade do sistema de produção ou logístico;
  • Demandam aprovação executiva para início das obras;
  • Provocam significativo impacto sócio-ambiental na região (ou mesmo no país) em que serão implantados.
E megaprojeto, o que seria? Segundo Hirsham (1995):


"Megaprojects are large-scale, complex ventures that typically cost a billion dollars or more, take many years to develop and build, involve multiple public and private stakeholders, are transformational, and impact millions of people."



Tradução minha:



"Megaprojetos são empreendimentos complexos de grande escala que tipicamente custam um bilhão de dólares ou mais, demoram vários anos para serem desenvolvidos e construídos, envolve múltiplas partes interessadas públicas e privadas, são transformacionais e impactam milhões de pessoas."




Exemplos de megaprojetos brasileiros:


Ponte Rio-Niterói


Agora um pouco sobre os livros da foto lá em cima:

1. "Say Yes to Project Success", por Karthik Ramamurthy e Sripriya Narayanasamy, 2017 (em inglês): não é diretamente relacionada a megaprojetos ou gerenciamento de riscos, mas eu separei para dar uma nova conferida, pois traz depoimentos de diversos especialistas sobre vários temas ligados a gerenciamento de projetos (eu apareço na página 14!).

2. "Megaprojects and Risk", por Bent Flyvbjerg, 2003 (em inglês). Quer entender porque megaprojetos, tanto na esfera pública quanto privada, tendem a estourar orçamento e cronograma? Este livro é uma EXCELENTE referência, mesmo sendo de 2003 (parece que não aprendemos muito mais sobre o assunto desde então...). É um livro escrito em linguagem acadêmica, mas cheio de referências e ideias bastante interessantes. Uma delas, e que coincide com minha experiência com megaprojetos, é de que atrasos e estouros de orçamento neste tipo de projeto ocorrem por diversos motivos, mas os principais são:

  - Superestimativa dos benefícios esperados para o projeto: o Business Case (ou documento equivalente) que justifica o projeto tende a superestimar os benefícios esperados para o projeto. Por quê? Por se tratar de um documento geralmente elaborado por uma consultoria contratada pelo dono do projeto, que de forma em geral inconsciente tende a gerar um estudo que coincida com as expectativas do cliente. Isto só poderá ser verificado anos depois, se e quando o projeto for concluído e entrar em operação.

Exemplo concreto citado no livro: projeto do "Channel Tunnel", (chamado em português de Eurotúnel) túnel submarino entre França e Reino Unido inaugurado em 1994 e com cerca de 50 quilômetros de extensão. O estouro no orçamento ("cost overrun") foi de 80%, mas tão ruim ou mesmo pior do que isto foi o retorno realizado versus o esperado, confiram este trecho de um artigo bem interessante do Bent Flyvbjerg ("What You Should Know About Megaprojects, and Why: An Overview", Draft 9.2,  April-May 2014):

(Extraído das páginas 9 e 10 - os grifos são meus):

"As a case in point, consider the Channel tunnel in more detail. This project was originally promoted as highly beneficial both economically and financially. At the initial public offering, Eurotunnel, the private owner of the tunnel, tempted investors by telling them that 10 percent "would be a reasonable allowance for the possible impact of unforeseen circumstances on construction costs." In fact, costs went 80 percent over budget for construction, as mentioned above, and 140 percent for financing. Revenues have been half of those forecasted. As a consequence the project has proved non-viable, with an internal rate of return on the investment that is negative, at minus 14.5 percent with a total loss to the British economy of 17.8 billion US dollars. Thus the Channel tunnel detracts from the economy instead of adding to it. This is difficult to believe when you use the service, which is fast, convenient, and competitive with alternative modes of travel. But in fact each passenger is heavily subsidized. Not by the taxpayer this time, but by the many private investors who lost their money when Eurotunnel went insolvent and was financially restructured. This drives home an important point: A megaproject may well be a technological success, but a financial failure, and many are. An economic and financial
ex post evaluation of the Channel tunnel, which systematically compared actual with forecasted costs and benefits, concluded that "the British Economy would have been better off had the Tunnel never been constructed" (Anguera, 2006: 291)."

Resumindo em bom português: em termos estritamente econômicos e financeiros teria sido melhor NÃO realizar o projeto, e quem investiu nele (o projeto teve oferta pública de ações para captação de recursos) tem poucas chances de algum dia vir a recuperar o seu investimento...

  - Subestimativa dos recursos e riscos esperados para o projeto: aqui entram vários fatores, com destaque para o viés de confirmação (falei um pouco dele aqui), onde incorremos no erro de aceitar tudo que valida nossa hipótese inicial e deixar de lado qualquer coisa que a contradiga (qualquer semelhança com o atual clima de discussão política no Brasil e no Mundo NÃO é mera coincidência) e para uma ausência de uma análise de riscos robusta e condizente com a complexidade do projeto.

Termino de falar sobre este livro reproduzindo uma tabela sobre estouros de custo em megaprojetos de um artigo do mesmo autor:

Lista de megaprojetos que tiveram estouro de orçamento ("cost overrun") - Fonte: "What You Should Know About Megaprojects, and Why: An Overview", Draft 9.2,  April-May 2014, by Bent Flyvbjerg


3. "Industrial Megaprojects", por Edward W. Merrow, 2011 (em inglês). Ed Merrow é o fundador do IPA (Independent Project Analysis), uma consultoria internacional focada em projetos de capital que já avaliou dezenas de milhares de projetos e foi a responsável pela introdução no Brasil, na Petrobras por volta de 2003 e na Vale e outras empresas pouco tempo depois, do conceito de FEL - Front End Loading. Não é hora de descrever o conceito de FEL em detalhe (sugiro conferir o link colocado acima), mas basicamente o que ele significa é que organizações devem investir recursos na fase de desenvolvimento do projeto ANTES de decidirem se irão ou não executar o projeto. A etapa de desenvolvimento custa em geral menos de 10% do valor do projeto e pode ajudar uma organização a economizar recursos que seriam investidos num projeto que não irá se pagar ao fim de sua execução.

Infelizmente o livro não descreve o FEL em detalhes, mas descreve em alto nível as principais variáveis de sucesso em megaprojetos, como:

  - Coleta de informações;
  - Formação e organização da equipe do projeto (que deve ser integrada e transdisciplinar);
  - Definição do projeto (FEL);
  - Contratações;
  - Gerenciamento de riscos;
  - Foco no sucesso.

Se você trabalha ou se interessa por megaprojetos/projetos de capital esta é uma boa recomendação!


4. "Identifying and Managing Project Risk: Essential Tools for Failure-Proofing Your Project ", por Tom Kendrick, 2015 (em inglês). junto com a referência #8 abaixo eu considero uma EXCELENTE referência para quem deseja conhecer e/ou implantar em sua organização um processo de eficaz de gerenciamento de riscos em projetos, mesmo para quem não trabalha com megaprojetos ou projetos de capital. Bem detalhado, já me ajudou em mais de uma consultoria para clientes sobre o tema!

5. "Reinventing Project Management: The Diamond Approach to Successful Growth & Innovation", por Aaron J. Shenhar e Dov Dvir, 2007 (em inglês). Este com certeza está na minha lista de "Top 10" referências em gerenciamento de projetos. Ele apresenta o "Diamond Approach", um processo desenvolvido pelos autores para definição da melhor metodologia ou processo de GP para um projeto, com base nas dimensões complexidade, inovação, tecnologia e passo (ritmo), conforme a figura abaixo:


Dimensões consideradas no "Diamond Approach" de Shenhar/Dvir (também chamado de modelo NTCP). Fonte: https://www.revistaespacios.com/a15v36n11/15361122.html 

 Um verdadeiro guia prático de como se fazer o "tailoring" (customização) de um processo para um projeto específico! 

Aqui tem um resumo (em inglês) do livro.


6. "Megaproject Management: Lessons on Risk and Project Management from the Big Dig", por Virginia A. Greiman, 2013 (em inglês). Na figura mais acima com uma lista de megaprojetos que tiveram estouro de orçamento Bent Flyvbjerg listou o projeto Boston´s Big Dig artery/tunnel project, USA, com um estouro de custo de 220%. Este livro fala sobre lições aprendidas neste projeto sobre riscos e gerenciamento de projetos, e é mais um que está no meu "Top 10" de gerenciamento de projetos!

Aqui está um link para uma palestra (em inglês) de cerca de uma hora da autora feita em 2013 na Microsoft sobre o tema do livro.


7. "GERENCIAMENTO DE PROJETOS DE CAPITAL PARA EXPANSÃO DA CAPACIDADE PRODUTIVA, por DARCI PRADO, 2014 (em português). De cara eu queria declarar que conheço e sou amigo do autor, Professor Darci Prado, há pelo menos 15 anos, mas isto de forma alguma interfere na minha opinião positiva sobre o livro (se eu não tivesse gostado simplesmente não o mencionaria, certo?). O livro fala sobre conceitos relacionados a projetos de capital, FEL e padrões existentes, e em seguida apresenta um modelo proposto pelo autor para tornar eficientes e eficazes os processos de gerenciamento a serem utilizados em projetos de capital. Ele é baseado na Tese de Doutorado  do autor em Projetos de Capital pela UNICAMP (2011) e complementado pela ampla experiência do autor em gerenciamento de projetos em geral e projetos de capital em particular.


8. "Proactive Risk Management: Controlling Uncertainty in Product Development", por reston G. Smith e Guy M. Merritt, 2002 (em inglês). "Irmão siamês" do #4. Mesma área de conhecimento, mas com abordagens complementares e muito bem descritas nos dois casos. Recomendo ambos, mas se precisar escolher só um recomendo o do Tom Kendrick (#4).


Boas leituras e sucesso nos seus projetos!

***** Ivo Michalick, 19 de agosto de 2019, Belo Horizonte, BRASIL

sábado, 29 de junho de 2019

PMI detalha mudanças no exame PMP® para dezembro deste ano

*** ATUALIZAÇÃO em 06-nov-19: o PMI mudou a data de atualização do exame para 01-jul-2020, detalhes aqui.

O PMI (Project Management Institute) lançou ontem (28-jun-2019) a nova versão do documento "PMP® Exam Content Outline". Trata-se do documento que descreve o conteúdo coberto no exame para a certificação PMP, considerada a mais relevante do mundo na área de gerenciamento de projetos (a minha é de 2004 e foi certamente um grande diferencial na minha carreira em gerenciamento de projetos).

Esta atualização do ECO ocorre a cada 4-5 anos, em geral nos intervalos entre os lançamentos de novas edições do Guia PMBOK® (a última atualização havia ocorrido em 2015).  Ela sinaliza uma mudança radical no exame (as mudanças passam a valer a partir de 16-dez-19), que até então era dividido em cinco domínios que correspondem aos grupos de processo do Guia PMBOK®, a saber (os percentuais indicam o número de questões baseadas no domínio):


  1. Iniciação 13%
  2. Planejamento 24%
  3. Execução 31%
  4. Monitoramento e Controle 25%
  5. Encerramento 7%



Nesta nova versão os domínios passam a ser somente três (fonte: notícia publicada no site do PMI, tradução minha):


  1. Pessoas (PEOPLE) – enfatiza as habilidades e atividades associadas com uma efetiva liderança de uma equipe de projeto - 42%
  2. Processo (PROCESS) – reforça os aspectos técnicos do gerenciamento de um projeto -  50%
  3. Ambiente de negócios (BUSINESS ENVIRONMENT) – destaca a conexão entre projetos e a estratégia da organização  8%



Além disto o PMI anunciou que o exame deverá abranger:
   

  • Maior enfoque na entrega de resultados. A prova irá cobrir tanto abordagens preditivas (cerca de 50%) quanto ágeis/híbridas (50%) para gerenciamento de projetos. 
  • Domínios (listados acima) alinhados a práticas do mundo real. Enfoques específicos de gerenciamento de projetos não serão alinhados a domínios individuais mas serão incorporados por todo o exame. 

Quem já possui a certificação PMP há mais tempo deve ter notado que os três novos domínios correspondem aos três lados do Triângulo de Talentos® do PMI, que foi lançado em janeiro de 2015 e pouco depois passou a impactar diretamente a renovação da certificação PMP, que deve ser feita pelos profissionais que a possuem a cada três anos. Segue imagem do Triângulo, reparem como os três lados são semelhantes aos três novos domínios do exame PMP:




Considerações finais

Esta mudança já era esperada, mas mesmo assim a sua dimensão a princípio me surpreendeu bastante, pois teremos praticamente um novo exame para a certificação PMP a partir de dezembro próximo. Ela era esperada em função do Triângulo de Talentos®, das grandes mudanças ocorridas no cenário de gerenciamento de projetos nos últimos anos, em especial o avanço das abordagens ágeis e híbridas, e no processo de transformação pelo qual o PMI vem passando nos últimos dois anos (lembrando que este ano o PMI completa 50 anos de vida).

Para quem pensa em fazer o exame PMP nos próximos 6 a 12 meses, eu recomendo decidir o quanto antes se pretende fazer o exame antes ou depois de 15 de dezembro próximo, pois até lá a prova segue o ECO de 2015, e a partir daí passa a valer o novo ECO, com todas as grandes mudanças que citei acima.

Para quem pensa em fazer a prova até 15-dez eu sugiro se habilitar para o exame e agendar sua realização o quanto antes, pois é comum uma "corrida" para o exame (grande número de pessoas buscando agendamento) nas semanas próximas à data da "virada". Para saber como se habilitar para o exame recomendo consultar o documento Manual da Certificação PMP®.

Para quem pensa em fazer a prova depois, enquanto não são lançados novos cursos e materiais de estudo baseados na nova versão eu recomendo fortemente a leitura do "Agile Practice Guide", desenvolvido pelo PMI em parceria com  a Agile Alliance®, além é claro da Sexta Edição do Guia PMBOK®


***** Ivo Michalick, 29 de junho de 2019, Belo Horizonte, BRASIL

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Resenha de "Agilidade Emocional", de Susan David





Agilidade Emocional, de Susan David

Andei meio sumido, mas a importância e a vontade de compartilhar um pouco do que aprendi com este livro da Susan David me fez voltar a escrever por aqui. Eu li o livro há mais tempo, em 2016, mas por conta de uma nova palestra que irei dar sobre o tema e seu forte relacionamento com outros temas que tenho estudado, como V.U.C.A., Mindset, Inteligência Emocional, Mindfulness e Pensamento Complexo, dentre outros, eu decidi escrever esta resenha.

Rigidez Emocional 


"Ficar preso a pensamentos, sentimentos e comportamentos que não nos atendem." (Susan David em "Agilidade Emocional")

Agilidade Emocional


"Ser flexível com seus pensamentos e sentimentos de forma que você consiga responder da melhor maneira a situações cotidianas.” (Susan David em Agilidade Emocional)

Nada de tentar controlar pensamentos ou te forçar a pensar de forma mais positiva! Isto não só não funciona como muitas vezes pode piorar as coisas... No livro Susan explica que já nascemos com agilidade emocional (que daqui para a frente irei chamar de AE), e como pai de crianças com 10 anos ou menos isto fica claro para mim. O problema é que à medida em que vamos crescendo e incorporando práticas e conceitos de nossa cultura acabamos por perder boa parte de nossa AE. E isto não é nada bom, pois precisamos dela para conseguirmos viver neste mundo V.U.C.A.. Mas espere aí, o que é este tal de V.U.C.A.?

V.U.C.A. é uma abreviatura em inglês criada na década de 1990 por militares americanos que significa Volatilidade (Volatility), Incerteza (Uncertainty), Complexidade (Complexity) e Ambiguidade (Ambiguity). Ela extrapolou o meio militar e vem sendo cada vez mais usada para descrever o mundo de hoje, em que as mudanças ocorrem de forma tão rápida e inesperada que muitos de nós temos dificuldades em acompanhá-las.

Sem AE é muito difícil viver neste mundo V.U.C.A.!

Ok, e como recuperar ou aumentar a nossa AE? Susan descreve várias estratégias no livro:

1. Use o seu neocórtex (parte do nosso cérebro que controla o nosso pensamento e raciocínio conscientes) para ficar atento à conexão entre sentimentos, pensamentos, palavras, ações e emoções. 

2. Procure fazer “pequenos ajustes” (“tiny tweaks”) focados em três áreas de nossas vidas:

Sistema de crenças (“mindset”)

Aqui ela bebe na fonte de "Mindset", outro livro fantástico, da Carol Dweck, que mencionei rapidamente aqui e que agora tem edição em português. Procure sempre desenvolver um mindset de crescimento (growth) ao invés de se apegar a um mindset fixo (fixed), que resiste a qualquer tipo de mudanças. Para isto é MUITO importante observarmos nossos pensamentos e palavras, pois estes influenciam diretamente nosso comportamento e ações.



Com muita frequência chamo atenção para este ponto (observação de nossos pensamentos e palavras) com meus clientes de coaching. Alguns dizem que isto é bobagem, ou não dão muita atenção, mas eu insisto, e eles acabam percebendo a importância desta mudança de comportamento. E claro, procuro me observar bastante para não ser controlado por um mindset fixo (veja o que a Susan fala sobre "passo para fora" em trecho de entrevista dela mais abaixo).

Motivações



“Eu tenho que” x “Eu quero”

Qual dos dois acima é mais eficaz para nos motivar, e por quê? Pense nos pequenos ajustes que você pode fazer AGORA em sua vida para alcançar algo que você queira mas não vem conseguindo.



Hábitos



Hábitos são comportamentos automáticos, portanto o primeiro passo para mudarmos um hábito que nos seja nocivo é tomarmos consciência dele.

Ok, identifiquei um hábito nocivo e decidi que quero (MOTIVAÇÃO) deixá-lo, ou trocá-lo por outro que me seja benéfico. Como faço isto?

Leia o livro da Susan, ou "O Poder do Hábito", de Charles Duhigg, sobre o qual falo aqui.

Um ponto importante abordado por Susan em seu livro e nesta entrevista em português para a revista Amanhã é:  



"Charles Darwin escreveu um livro não muito famoso chamado “A expressão das emoções nos homens e nos animais”. Na obra, ele discorre sobre a ideia de que as emoções nos ajudam não apenas a nos comunicar om outras pessoas, mas também com nós mesmos. Esse é um aspecto crítico do meu livro. Essa ideia de que podemos aprender com o que há por trás das nossas emoções, quando temos um sentimento de culpa, de ira, há sempre alguma coisa aí de instrutivo para nós. Agora, a distinção evidente aqui é que nossas emoções são dados – e não direcionamentos. Podemos aprender com elas, mas não temos de obedecê-las ou ser dominados por elas.

No livro, discorro sobre a ideia de se expor. Contudo, descrevo também as habilidades críticas que chamo de dar um passo para fora, isto é, a capacidade de experimentar um sentimento ou pensamento e praticamente pairar acima dele. Todos tivemos essa experiência: quando nos irritamos com alguém, quando espumamos de raiva com um encarregado do serviço ao cliente que mais uma vez errou na nossa conta. Essa capacidade de sentir emoção e praticamente pairar sobre ela é uma habilidade fundamental para nós e para nossos filhos. Ela nos ajuda a ser sadios
e a nos sentir bem sem ignorar nossas emoções. [Uma citação frequentemente atribuída a Viktor Frankl sintetiza bem isso:] entre o estímulo e a resposta, há um espaço. E nesse espaço está nosso poder de escolha. É dessa escolha que vem nosso crescimento e liberdade." (fonte: entrevista da autora para a revista Amanhã)

Nossa, se já não tivesse lido o livro quando conferi esta entrevista iria correndo comprá-lo só por conta deste trecho, em especial pelas citações a dois autores que me marcaram muito, Charles Darwin (falo dele aqui) e Viktor Frankl, autor de "Em Busca de Sentido", sobre o qual falo aqui.

Ficou interessado? Então use seu mindset de crescimento e vá conferir o livro da Susan!

***** Ivo Michalick, 17 de junho de 2019, Belo Horizonte, BRASIL






quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Coaching: uma biblioteca de referência

Muitas pessoas me pedem referências de livros sobre coaching, e em função disto eu resolvi postar aqui uma biblioteca de referência, com livros em português, inglês e espanhol.



Biblioteca de referência sobre coaching

1. "Awaken The Giant Within", Tony Robbins: é por muito considerado o maior coach do mundo, ao mesmo tempo que muitos o consideram mais um "showman". Você pode tirar suas próprias conclusões assistindo o documentário "I Am Not Your Guru", disponível no Netflix. Repare no trailer do documentário que os seminários do Tony são verdadeiros espetáculos que reúnem milhares de pessoas. Não é um livro introdutório sobre coaching, mas dá excelentes dicas e conceitos bem interessantes.


"Awaken The Giant Within", Tony Robbins

Link para versão em português: site da Livraria Cultura

2. "Competencias de Coaching Aplicadas", Damián Goldvarg, Norma Perel de Goldvarg: coaching não é uma profissão regulamentada, mas existem associações que procuram organizar e regular informalmente a área. A mais abrangente e conhecida é a ICF - International Coaching Federation. O primeiro autor é um ex Presidente mundial da ICF e descreve com detalhe no livro as 11 competências essenciais do coaching na visão da ICF, que costumam se a base do currículo da grande maioria dos cursos de formação em coaching.


"Competencias de Coaching Aplicadas", Damián Goldvarg, Norma Perel de Goldvarg


3. "Zen Coaching", Javier Carril: mistura curiosa (e bem eficaz) de Zen e coaching, de leitura muito agradável. Aliás os autores de língua espanhola, em especial chilenos e argentinos, costumam oferecer obras bem interessantes sobre coaching.


"Zen Coaching", Javier Carril

Não possui versão em português.

4. "Coaching com PNL", Andrea Lages & Joseph O´Connor: tradução do original em inglês que aborda coaching com técnicas de PNL - Programação Neurolinguística, tema sobre o qual Joseph O´Connor é um dos principais expoentes.


"Coaching com PNL", Andrea Lages & Joseph O´Connor

5. "Coaching", Anna Zaharov: introdução geral interessante sobre o tema, apesar de não seguir a lista de competências proposta pela ICF. Fala sobre o profissional de coaching, dinâmica do processo, temas que costumam se repetir nas sessões, peso das emoções e gestão de pessoas.


"Coaching", Anna Zaharov

6. "Ferramentas de Coaching", João Alberto Catalão, Ana Teresa Penin: este seria um livro para coaches, pois assume que o leitor conhece o assunto e está em busca de ferramentas que possam apoiar o seu trabalho, descrevendo de forma sucinta 50 ferramentas de coaching, boa parte delas usada por mim em diferentes momento das minhas sessões.


"Ferramentas de Coaching", João Alberto Catalão, Ana Teresa Penin 

7. "Lifestorming", Alan Weiss e Marshall Goldsmith: os autores, em especial Marshall Goldsmith, são considerados entre os maiores coaches do mundo, e esta é sua primeira obra em conjunto. Curto e de fácil leitura, vale a pena conferir pelos vários "insights" oferecidos ao longo do livro.


"Lifestorming", Alan Weiss e Marshall Goldsmith

Não possui versão em português.

8. "Coaching Executivo", Vicky Bloch, João Mendes, Luis Visconte: os autores  descrevem no livro o processo que utilizam para o coaching executivo, conceito que definem como:

"O coaching executivo é um processo estruturado, porém flexível, que promove um movimento de dentro (reflexão) para fora (ação) e que envolve, fundamentalmente, o engajamento e a motivação do coachee. Ele conduz ao processo de alto desempenho pelo comprometimento com os stakeholders".

Boa leitura para coaches que querem conhecer mais sobre coaching executivo e para executivos que consideram passar por um processo de coaching. Inclui depoimentos de executivos que passaram pelo processo.


"Coaching Executivo", Vicky Bloch, João Mendes, Luis Visconte

9. Co-Active Coaching, Henry Kimsey-House, Jaren Kimsey-House, Phillip Sandahl, Laura Whitworth: publicado pelo CTI - The Coaches Training Institute, considerada a maior escola de coaching do mundo (em termos de alunos formados) e na qual fiz a minha formação completa em coaching, com o programa completo de cursos seguido da certificação, chamada CPCC - Certified Professional Co-Active Coach Foi uma jornada de quase dois anos cujo início eu descrevi nesta postagem de 2013. Optei por fazer os cursos de forma espaçada e sempre em turmas diferentes, todas nos Estados Unidos. E confesso, o processo de certificação não foi nada fácil, com sessões supervisionadas e no final provas escritas e orais. 

Peço desculpas pela aparente "corujice", mas gostaria de compartilhar aqui meu certificado CPCC, que demandou mais de 200 horas de estudo teórico e prático além de algumas centenas de horas de sessões com clientes. Isto já incentivou pelo menos dois colegas brasileiros a seguirem este caminho e também se tornarem coaches certificados como CPCC pelo CTI.


Meu certificado de CPCC emitido pelo CTI e assinado pela Karen Kimsey-House


Co-Active Coaching, Henry Kimsey-House, Jaren Kimsey-House, Phillip Sandahl, Laura Whitworth

Não possui versão em português.

10. "Coaching For Performance", John Whitmore: a primeira edição é de 1992 e tida por muitos como a primeira publicação séria sobre o assunto. Bem focado em melhoria de desempenho, descreve em detalhes o modelo GROW, uma das principais ferramentas usadas por coaches até hoje. Escrito antes da criação da ICF (fundada em 1995) e de seu programa de competências, apresenta uma visão bem prática e aplicável do processo de coaching que se mantém bastante atual até os dias de hoje.



"Coaching For Performance", John Whitmore


E é isto! Gostou e quer saber mais sobre coaching? Então faço aqui o meu comercial: me procure - ivo.michalick@m2coaching.com.br , que eu te mando um questionário inicial com um conjunto de questões que me permita te conhecer melhor, e a partir das suas respostas (que obviamente manterei em sigilo, servirão apenas para que eu faça uma avaliação inicial sobre minha condição de ajudá-lo num processo de coaching) eu lhe envio um link para agendarmos uma primeira conversa, sem custo, para discutirmos melhor o processo e quem sabe iniciar um trabalho! As sessões podem ser presenciais (no meu home office em Belo Horizonte) ou à distância (via Skype, já atendi vários clientes de outros Estados e até de fora do Brasil).
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Ivo Michalick, 07 de novembro de 2018
Twitter: @ivomichalick
Belo Horizonte - BRASIL

sexta-feira, 30 de junho de 2017

"Ambiversão"

Eu sempre me achei uma pessoa tímida, ou melhor dizendo, introvertida. Minha família e meus amigos mais próximos sempre concordaram, mas com frequência eu encontro pessoas que se surpreendem quando digo isto, na linha de "Você, como assim, já assisti várias palestras suas com auditório cheio e você foi super bem!" ou coisa parecida. Também vai na contramão desta percepção o fato de que por muitos anos eu fui bastante ativo em fóruns de discussão na Internet, e com frequência escrevo no meu blog e interajo com leitores via email ou comentários. Até costumo dizer que fui "salvo pela Internet", pois através dela conheci centenas, talvez milhares de pessoas com as quais dificilmente iria interagir no mundo real sem este estímulo inicial.

Mas parte de mim sempre acho que esta coisa de ser introvertido seria verdade só até certo ponto. Aí em 2013 eu li "To Sell Is Human"/"Saber vender é da natureza humana", de Daniel Pink, que me apresentou o conceito de "ambiversão". Segundo Pink (traduzindo de artigo do autor disponível aqui  - por favor confira o artigo para saber mais sobre a Escala de Grant):

"Ambivertidos, um termo criado por cientistas sociais na década de 1920, são pessoas que não são nem extremamente introvertidas nem extremamente extrovertidas. Pense na escala de 1 a 7 usada por Grant. Ambivertidos não são 1 ou 2, mas também não são 6 ou 7. Eles ficam entre 3 e 5. Eles não são quietos, mas também não são barulhentos. Eles sabem como colocar suas opiniões, mas não são insistentes."




Isto me fez lembrar um dos maiores elogios que já recebi na vida de um colega de trabalho, vai em inglês mesmo pois é fácil de entender:

"Ivo is a man of few words, but each one is gold."

E para não parecer que estou me autopromovendo. aqui vão alguns adjetivos usados a meu respeito por pessoas que não são da minha família ou do meu círculo mais próximo de amigos: metido, arrogante, dono da verdade, pretensioso, autoritário e por aí vai...

Interessante, não? Minha leitura é de que todos estão certos, afinal estas foram suas percepções, e eu descobri que sou um "introvertido que às vezes tende para a ambiversão". E se queremos ter sucesso na vida precisamos dar atenção às opiniões positivas e negativas a nosso respeito. Muitas podem ser bobagens (geralmente por se basearem numa amostra muito pequena de nosso comportamento), mas boa parte retrata uma percepção concreta da outra pessoa, reforçada ainda mais quando outras pessoas emitem opinião similar.

Ok, mas e daí? E daí que eu acredito que todos nós que estamos mais para um dos extremos da Escala de Grant temos MUITO a aprender com o outro extremo, e podemos fazer isto via obervação e prática, ao mesmo tempo mantendo nossa essência interior. Continuo me considerando um introvertido, mas estou totalmente convencido da necessidade de incorporar aspectos de extroversão no meu comportamento e na minha comunicação com outras pessoas, em especial as extrovertidas, e vejo isto como uma tarefa para o resto da vida. E se você quer começar a fazer isto, eu sugiro este simples exercício:


Começando AGORA, passe a cumprimentar TODA pessoa com quem você interage na sua rotina diária (tanto pessoal quanto profissional) com um sorriso no rosto, chamando a pessoa pelo nome (se não sabe ou não se lembre pergunte, e trate de não esquecer!), olhando nos olhos e dizendo "Bom dia Alice" ou algo parecido. Pratique isto por duas semanas e depois reflita sobre o que aconteceu na sua vida. E caso se sinta à vontade por favor comente por aqui como foi!


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Ivo Michalick, 30 de junho de 2017
Twitter: @ivomichalick
Belo Horizonte - BRASIL


segunda-feira, 6 de março de 2017

Atualização do meu projeto

Muita gente tem me perguntado sobre o status do meu projeto de recuperação, e apesar dele ainda estar em andamento e com algumas definições importantes por acontecer eu decidi postar por aqui um novo relato, vamos lá:

Depois da negativa da UNIMED-BH em cobrir o exame PET-TC eu recorri à via judicial, e consegui liminar em agosto passado. Fiz o exame em setembro, e no laudo aparece a expressão a seguir:


"Lesão hipermetabólica expansiva no corpo vertebral de T10 e T11 compatível com plasmocitoma metabolicamente ativo."


O que em bom português indica que o tumor parece continuar ativo. Em seguida fiz mais uma grande quantidade de exames, os mais importantes sendo:

1. Biópsia da medula, em out-16: deu negativo, o que significa que pelo menos na minha medula, que foi de onde saíram as células que geraram o tumor, não tenho nada doente no momento, o que é uma excelente notícia. 

Procedimento relativamente simples, fiz pela segunda vez. Vou a um ambulatório, me dão uma sedação de cerca de 30 minutos, e quando acordo o procedimento já foi encerrado! Ainda bem, pois não queria precisar ver a agulha, que sei que é enorme :)

2. Biópsia fechada do tumor, com agulha, em nov-16: esta é um pouco mais chata, pois precisei me internar e passar um dia inteiro no hospital. Além disto o procedimento envolve anestesia geral e, pela localização do tumor (incrustado ao redor da minha espinha), apresenta certo risco. Foi feito com (de novo!) uma agulha enorme que mais uma vez não vi e o cirurgião se guia por imagens de tomografia em tempo real (esta parte eu queria ter visto!). Trata-se de um procedimento menos invasivo do que a outra alternativa, que seria a biópsia aberta, mas com possibilidade de dar errado no sentido de não conseguir pegar amostras significativas do tumor para análise. E foi isto que acabou ocorrendo, e o pior é que para descobrir foi preciso esperar cerca de duas semanas pelo resultado...

Aí veio Natal, viagem do cirurgião que fez as minhas biópsias do tumor (o mesmo que me operou em agosto de 2015) e um janeiro em que eu tinha agendados 10 dias de férias com a família num resort na Bahia, seguidos de outra viagem de 10 dias aos Estados Unidos, para reuniões do PMI (Project Management Institute) em Philadelphia e quatro dias de passeio rápido em New York e Miami (afinal sabe-se lá quando terei oportunidade de voltar aos Estados Unidos dada a incerteza do meu projeto, certo?).

3. Biópsia aberta do tumor, em 17-fev-17: agendada inicialmente para 03-fev, adiada a meu pedido depois que entendi a complexidade da coisa, bem maior do que eu pensei inicialmente. Eu achei que poderia atender compromissos profissionais agendados já a partir de segunda, e aí descobri que se trata de uma verdadeira cirurgia, com anestesia geral, abertura via corte e intervenção direta na região do tumor para retirada de amostras com apoio visual. Previsão de dois a três dias no hospital seguidos de uma semana de repouso.

O resultado da biópsia chegou hoje (06-mar), mas só terei consulta com a minha médica mais no fim desta semana. De qualquer forma estou trabalhando (como gerente de projetos que sou!) com o pior cenário, que prevê tratamento quimioterápico, provavelmente a começar ainda este mês. O que vier melhor do que isto será lucro!

Este período de agosto até agora não tem sido fácil, mas ao mesmo tempo é "fichinha" quando penso no que passei nos meses logo depois da cirurgia inicial. Busquei levar a vida da melhor forma possível, mas reduzi drasticamente minha carga de trabalho e de viagens, o que estou retomando agora. Também devo dizer que tive altos e baixos em termos de estado mental, mas as técnicas de mindfulness e outras que citei numa postagem anterior sobre o projeto me ajudaram bastante.

Uma coisa que este projeto trouxe para mim foi me levar a refletir de forma mais profunda sobre o meu projeto de vida para os próximos dez anos. A motivação é bem simples: a mediana de expectativa de vida para pessoas que possuem esta doença é de mais dez anos. Isto quer dizer que, mesmo que se este tumor vier a me matar um dia, isto ainda vai demorar muito tempo, e ainda tem muita coisa que eu quero e preciso fazer com a minha vida. Nesta reflexão uma frase que me marcou muito foi esta:

"Once you have mastered time, you will understand how true it is that most people overestimate what they can accomplish in a year - and underestimate what they can achieve in a decade!" (Tony Robbins)

Eu a ouvi pela primeira vez da boca do próprio Tony Robbins, no excepcional documentário "I am not Your Guru", disponível no Netflix, que aliás eu recomendo fortemente.





Uma decisão importante que eu tomei é que irei falar menos deste projeto e mais sobre outros temas que me interessam, não quero passar para vocês a ideia de que esta doença me define e tem muita coisa interessante que eu gostaria de compartilhar com vocês :)

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Ivo Michalick, 06 março de 2017
Belo Horizonte - BRASIL